Uma nova visão da pedagogia e da compreensão psicológica sob a luz de Piaget

Educar é adaptar o indivíduo ao meio social ambiente, sendo que existem duas visões conflitantes a respeito de como isso deve ser feito. Se por um lado a escola tradicional impõe ao seu aluno sua tarefa, a moderna apela para atividade real, para o trabalho espontâneo e no interesse pessoal. Enquanto a pedagogia tradicional atribuía à criança uma estrutura mental idêntica à do adulto, mas um funcionamento diferente enquanto que os novos métodos de educação se esforçam para apresentar às crianças de diferentes idades as matérias de ensino sob formas assimiláveis á sua estrutura e aos diferentes estágios de seu desenvolvimento.

Uma questão de Piaget é definir o que é infância, sendo que ele sintetiza como sendo uma etapa biologicamente útil, cujo significado é o de uma adaptação progressiva ao meio físico e social.

Essa adaptação é um equilíbrio entro dois mecanismos indissociáveis: a assimilação e a acomodação, então no caso do organismo ele é adaptado quando pode ao mesmo tempo conservar sua estrutura assimilando a ela os alimentos tirados do exterior e acomodar essa estrutura às diversas particularidades desse meio. Piaget nos trás que a característica da infância é encontrar esse equilíbrio através de uma série de exercícios ou de condutas sui generis, por uma atividade de estruturação contínua, partindo de um estado de indiferenciação caótica entre o sujeito e o objeto. Essas considerações são fundamentais para a escola pois, de fato, a assimilação sob sua forma mais pura nada mais é que o jogo, que é uma das atividades infantis mais características.

O jogo é um caso típico das condutas deixadas de lado pelas escolas tradicionais, mas o problema é que a criança que joga desenvolve suas percepções, sua inteligência, suas tendências à experimentação, seus instintos sociais etc. Mas que só adquire sua plena significação na medida em que se pode apoiá-la na noção de assimilação. No caso do jogo simbólico, se explica também pela assimilação do real ao eu: ela é o pensamento individual em sua forma mais pura, sendo que dessa forma, o jogo sob as suas duas formas essenciais de exercício sensoriomotor e de simbolismo, uma assimilação do real à atividade própria. É importante ressaltar que a adaptação completa que deve ser realizada pela infância consiste numa síntese progressiva da assimilação com a acomodação.

No caso da inteligência, a psicologia clássica define-a como sendo uma faculdade dada de uma vez por todas e suscetível de conhecer o real enquanto que a dos dias de hoje reconhece a existência de uma inteligência que ultrapassa as associações e os hábitos e atribui a essa inteligência uma atividade verdadeira e não somente a faculdade do saber. Estudos mostram que a inteligência é a adaptação por excelência., o equilíbrio entre a assimilação contínua das coisas à atividade própria e a acomodação desses esquemas assimiladores aos objetos em si mesmos.

Toda inteligência é uma adaptação e toda adaptação comporta uma assimilação das coisas do espírito, como também o processo complementar de acomodação. Portanto qualquer trabalho de inteligência repousa num interesse, que é o aspecto dinâmico da assimilação e surge quando o eu se identifica com uma idéia ou um objeto.

A lei do interesse, que domina ainda o funcionamento intelectual do adulto não é a mesma do da criança, uma vez que não é coordenado e unificado. O problema reside no fato de que a educação tradicional sempre tratar a criança como um pequeno adulto, um ser que raciocina e pena como nós, mas desprovido simplesmente de conhecimentos (um adulto ignorante), o que é errado uma vez que a mente da criança funciona diferentemente da nossa. A questão principal das abordagens modernas na educação é encontrar o meio e os métodos convenientes para ajudar a criança, dentro de seu contexto e possibilidades, a conseguir atingir os objetivos intelectuais e morais. A escola moderna deve ter a preocupação de saber qual é a estrutura de pensamento da criança, e quais as relações entre a mentalidade infantil.

No que se refere à educação intelectual, é fundamental trabalhar baseado na lógica da criança. Uma diferença entre as lógicas dos adultos e das crianças e a que se refere às relações entre a inteligência gnóstica ou reflexiva e a inteligência prática. Na criança em idade escolar existe uma inteligência prática servindo de subestrutura à inteligência conceitual e cujos mecanismos parecem ser independentes desta última e inteiramente originais. Essa inteligência precede a inteligência refletida, sendo que esta consiste numa tomada de consciência dos resultados daquela.

A adaptação prática nas crianças constitui ao contrário da primeira etapa do próprio conhecimento e a condição necessária a qualquer conhecimento refletido ulterior.

É importante frisar aqui que a criança (antes dos 10-11 anos) não possui de forma alguma capacidade de ter um raciocínio formal, sendo que ela raciocina frequentemente de uma maneira que, para nós, é contraditória.

Sabendo disso, podemos entender o sistema de classes infantis. Destaca-se aqui que a educação tradicional faz da linguagem um uso quase exclusivo de modo que esta estabeleça uma correspondência termo a termo entre as noções do professor e as do aluno, o que certamente não funciona e explica uma das reações fundamentais da escola ativa contra a escola receptiva.

Quanto ao que os lógicos chamaram de lógica das relações, a diferença é ainda mais visível entre o pensamento da criança e a razão elaborada, sendo que esse pensamento funciona como o nosso, apresentando as mesmas funções especiais de coerência, de classificação etc., mas as estruturas lógicas particulares que preenchem as funções são suscetíveis de desenvolvimento e de variação.

Um problema fundamental é o dos próprios mecanismos do desenvolvimento do espírito e uma experiência sistemática que permite o entendimento da influência do meio sobre o crescimento psíquico é a vida escolar.

O desenvolvimento psíquico da criança foi concebido como se desenrolando numa série de períodos determinados hereditariamente e correspondendo às etapas da humanidade. Entra no desenvolvimento intelectual uma parte notável da maturação interna independente do meio exterior e esse desenvolvimento é concebido como consequência só da experiência e que a sua estrutura intelectual hereditária da criação leva-a simplesmente a registrar as lições da realidade.

È importante ressaltar que os novos métodos de educação que obtiveram êxito a longo prazo demonstram novas perspectivas para a educação ativa.
Com relação às leis e os estágios do desenvolvimento intelectual, segundo Piaget, com a idade existe uma transformação estrutura do pensamento, porém não se pode definir limites etários rígidos. É importante mencionar que existe o fato de que uma mesma noção pode aparecer no plano sensoriomotor ou prático bem antes de ser objeto de uma tomada de consciência ou de uma reflexão.

A educação moderna e a psicopedagogia levantam questões análogas às da biologia genética, conforme citado acima.

A respeito da vida social da criança, Piaget nos mostra que a questão da influência do meio sobre o desenvolvimento e o fato de que as reações características dos diferentes estágios sejam sempre relativas a um certo ambiente tento quanto à própria maturação do espírito.

Enquanto a escola tradicional conhece apenas uma relação social: a ação do professor sobre o aluno, a escola moderna, baseada nos novos conceitos educacionais, reservaram em princípio um lugar essencial à vida social entre crianças.

Podemos dizer que a criança procede de um estado inicial de egocentrismo inconsciente, correlativo de sua indiferenciação do grupo, ou seja, a evolução social da criança procede do egocentrismo à reciprocidade, da assimilação a um eu inconsciente dele mesmo à compreensão mútua constitutiva da personalidade, da indiferenciação caótica no grupo à diferenciação baseada na organizada disciplinada.

Nos processos de socialização, o esforço da nova pedagogia é voltado para suprir as insuficiências da disciplina imposta de fora por uma disciplina interior, baseada na vida social das próprias crianças. Certamente os novos métodos de educação não tendem a eliminar a ação social do professor, mas a conciliar com o respeito do adulto a cooperação entre as crianças, e a reduzir a pressão deste último para transformá-la em cooperação superior.

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