Por que não 44?

Meus queridos, estava eu exercendo meu hábito de ler o jornal Folha de São Paulo e me deparei com uma entrevista  que me chamou a atenção e decidi compartilhar com todos vocês sobre meus devaneios sobre a matéria.

A bem da verdade não foi nem tanto o assunto da entrevista em si que me fez refletir sobre nossas vidas, em especial como as tratamos no que tange à nossa capacidade de atuar frente às nossas obrigações.

Dessa forma, a pergunta que retumbou em meu cérebro foi: por que não somos mais eficientes?

Pois bem, perdoem-me pela digressão, irei ao assunto: trata-se da entrevista de hoje, 03 de agosto de 2009 com Gérard Saillant, presidente da Comissão Médica da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), que relatou suas impressões acerca do acidente ocorrido com o piloto brasileiro Felipe Massa na Hungria no último dia 25 de julho, que apresentou assombrosa semelhança daquele que ceifou a vida de um dos poucos heróis nacionais que temos: Ayrton Senna da Silva.

Não caros leitores, não refletirei sobre a efemeridade de nossas vidas, o impacto das casualidades em nossas certezas ou algo parecido. Na verdade a entrevista foi bem previsível em se tratando de uma autoridade do automobilismo internacional relacionada à segurança dos pilotos, falando sobre o seu próprio pescoço.

Bem no final de um bate-papo sobre as primeiras (e trágicas) sensações após o acidente, a evolução da segurança nas pistas, a bajulação para com seu chefe começou uma conversa sobre os atletas que ele, enquanto médico, ajudou em suas recuperações.

Então, veio a epifania: ele relatou sobre sua experiência com o heptacampeão da Fórmula 1, Michael Schumacher, quando de sua recuperação de um acidente que sofreu no ano de 1999 em Silverstone, no qual teve suas duas pernas quebradas. Assim, foi dito pelo médico francês: “Ele é bem diferente porque é um ótimo paciente, mas ele quer saber o porquê de tudo. Você fala para ele andar por 45 dias e ele pergunta, por que 45 e não 44?…”

Será que essa é a essência de um campeão? Questionar o que está ao seu redor, ter uma visão crítica sobre o que lhe cerca, saber opinar sobre o que é bom e o que é certo? Buscar extrair o máximo de conhecimento de pessoas que versam sobre a matéria e pensar sobre a mesma, aprimorando-se.

Penso que nessa breve intimidade de um dos maiores campeões da história do esporte temos um lampejo de sua grandiosidade enquanto profissional, enquanto vencedor.

Os maiores não são obedientes como o gado, cujo final que lhe é reservado reside em nosso prato, mas sim tem o espírito livre, contestador, caótico para que em sua entropia busque se reinventar, se recriar, em uma desordem coesa, obstinada, determinada, fria, objetiva.

Quantas vezes em nossas vidas buscamos entender as razões das coisas, buscamos verificar que os elementos possuem razões, mesmo que não a compreendamos por completo. Assim como para o nosso heptacampeão por mais que o seu famoso médico se esforçasse para lhe apresentar silabicamente os fundamentos boticários de sua decisão, este não o compreenderia em sua plenitude, encontramos inúmeros paralelos em nossos cotidianos.

Em nossa existência, não podemos ter a pretensão de entender por completo o que nos cerca. Porém, vejo que o truque existencial que involuntariamente Schummy nos passou é o de que temos que ser curiosos e críticos em relação ao que está ao nosso redor, ainda que devamos ter a humildade de acreditar nas autoridades no assunto, essencialmente quando se trata de uma temática longe de nossa compreensão, como os meandros da Medicina. Será que é assim que se forma um campeão?

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