Pensamento Estatístico na Gestão Estratégica

Pensamento Estatístico na Gestão Estratégica

Os dados, através de seus padrões e comportamentos, nos revelam informações imprescindíveis acerca do mundo que nos cerca. Constantemente, mais e mais conjuntos de números são gerados e solicitam que sejam analisados, compreendidos e transformados em informação. Com os adventos da computação e da comunicação, atualmente temos rápido acesso a uma infinidade de números e podemos gerar uma quantidade incrivelmente grande de novos valores dentro de nossas esferas de atuação social (trabalho, família, etc.).

Essa “hiperventilação”* numérica, que defino como hipernumeração, aproxima de nós a necessidade de aprendermos a nos orientarmos dentro desse vasto universo, através de técnicas e instrumentação voltadas para a descrição e localização dos dados relevantes; a selecionarmos e auditarmos com vistas na confiabilidade e representatividade; e a interpretarmos os dados isoladamente e dentro de suas micro, meso ou macroestruturas e redes de relacionamentos, estabelecendo pontes lógicas e regras de encadeamento e ordenação.

* Estabelecemos essa aproximação da gestão do conhecimento com o conceito de hiperventilação (exposição a uma quantidade enorme de ar, o qual pode levar uma pessoa ao sufocamento), pois não raro encontramos situações em que as pessoas encontram-se defronte a massas gigantescas de dados, sendo humanamente impossível analisá-los em sua totalidade, através de todas as suas dimensões cúbicas. Com efeito, encontramos uma série de eventos que quando de uma exposição in extremis, pode levar a danos severos ao sujeito exposto (como é o caso de som em um volume muito alto, luz muito intensa ou temperaturas extremas, por exemplo). No caso dos dados, essa superexposição (hipernumeração), se não for trabalhada de modo adequado, pode levar ao colapso (“sufocamento”) de um sistema de informação e/ou conhecimento.

Entre estas, podemos destacar as intradependências (séries temporais unidimensionais), as interdependências (correlações entre séries temporais e atemporais multidimensionais (variabilidade simultânea de duas ou mais dimensões, com ou sem relação causa-efeito)) e as independências.

Esses elementos sustentam-se em um extenso conjunto de ferramentas estruturadas com o intuito de responder a inúmeros grupos de questionamentos que podem ser levantados sobre uma vasta gama de situações e, em última análise, sobre conjuntos de dados.

Vejamos algumas perguntas frequentes na prática da Gestão Estratégica:

• Qual o grau de impacto de um aumento de preços em X% no volume de vendas?

• Qual a previsão de receita e despesa para o próximo semestre? E se a minha empresa adotar a estratégia A ou B, serão encontradas diferenças significativas?

• Como se encontram meus indicadores frente aos dos meus concorrentes? Em quais dimensões meus indicadores são superiores? E inferiores ou similares? Qual a medida de meu distanciamento em relação aos meus valores de comparação?

 

• Minha estrutura apresenta uma perda significativa de materiais e serviços em não-conformidade com a política de qualidade?

• Existe relação entre a forma de cobrança adotada pela minha estrutura e o retorno de pagamentos? Em caso afirmativo, qual a sua força e quais as relações custo-benefício projetadas estabelecidas entre as diversas estratégias possíveis.

• Qual o nível de percepção de meus clientes em relação à política que acabo de implementar em meu sistema? Esse parâmetro tende a aumentar, a diminuir, ou permanece constante no decorrer do tempo? Qual o valor dessa variação?

• Qual a opinião de meus clientes (internos e externos) acerca do serviço Y? Quais seus pontos fortes e fracos?

Mesmo sendo questionamentos de diversas áreas dentro de uma estrutura (Materiais, Comercial, Financeiro, Administrativo) podemos perceber um elemento comum a essas perguntas: todas podem ser elucidadas através de dados! Sejam dados existentes e disponíveis, sejam aqueles que precisam ser levantados.

Agora, é importante ressaltar que o caminho que esse conjunto de números percorre desde o seu levantamento até sua transformação em elemento útil para subsidiar decisões estratégicas é relativamente complexo. Portanto, para a perfeita compreensão do potencial de aplicabilidade das técnicas e pensamentos aqui expostos, se faz necessária uma breve reflexão a respeito desse caminho, explanando sobre as delimitações e diferenciações, muitas vezes despercebidas, entre Dados, Informação, Conhecimento e Inteligência.

Dados: Correspondem aos conjuntos de números que existentes dentro de um contexto, de uma situação em particular que o define e o torna um indexador único para descrever determinado elemento (eventual, circunstancial ou material). Podemos tomar como exemplo o conjunto de valores de todos os CPFs dos cidadãos brasileiros ou ainda os todos valores pagos de Imposto de Renda de 1970 até os dias de hoje. Aqui encontramos a hipernumeração e percebemos que os dados per si não trazem para o seu leitor nenhum tipo de valor agregado, nenhuma resposta. Para esse nível, a tecnologia é indispensável, nos dias atuais, para trabalhar com a captura, organização e filtragem do crescente aumento de geração de dados.

Informação: É a aproximação e concatenação lógica entre um seleto conjunto de dados, com vistas no entendimento de uma situação em particular. Dessa forma eu posso utilizar um conjunto de dados para saber a posição da distribuição de atendimento da saúde pública através dos bairros de um determinado município ou então, a distribuição de clientes por faixa etária dentro de um Shopping Center ou um Parque através de certos períodos do dia. Em uma organização, corresponde a um nível gerencial, onde se faz necessário saber, por exemplo, a posição de estoques ou a alocação de pessoal e recursos de pequeno porte para resolver problemas cotidianos operacionais. Esse nível apresenta ainda uma grande necessidade de tecnologias, porém em menor escala e mais sofisticadas do que as requeridas na manipulação dos Dados. Aqui encontramos as aplicações mais robustas da Estatística.

 

Conhecimento: Entende-se como sendo a introspecção, ou antes a aquisição, de uma regra, uma lei vigente que perpassa um grupo de informações. Desse modo, compreende-se o sistema, a força que impulsiona e direciona o conjunto de análise, determinando suas características intrínsecas e seus meandros em minúcia, tornando o detentor do conhecimento, estabelecer previsões de comportamento e estruturar políticas de aperfeiçoamento sistemático. Desse modo, uma pessoa ou um sistema bem informado, não implica que tenha conhecimento. Um exemplo que podemos tomar é o de um telejornal que informa a população acerca de um aumento do dólar. Para se chegar nessa informação, foi necessário que técnicos captassem uma série de dados específicos para tal fim e os analisassem. Porém, o telespectador médio não adquiriu conhecimento, mas sim informação, uma vez que não tem subsídios (e na grande maioria das vezes treinamento) para entender a regra do jogo. Desse modo, ele tem apenas um lampejo, uma fotografia dos acontecimentos, mas não é capaz de entender todo o sistema que levou a essa situação atual anunciada na televisão, muito menos estabelecer previsões e traçar cenários futuros da maneira adequada.

Como pudemos perceber, a dependência da tecnologia para ascendermos para o nível do Conhecimento é muitíssimo menor, porém em contrapartida, seu nível de sofisticação aumenta vertiginosamente. Aqui podemos encontrar as aplicações mais refinadas da Estatística ou ainda, do Pensamento Estatístico.

Inteligência: Calcado nos três conceitos acima mencionados, esse nível pode ser resumido como sendo a aplicação do Conhecimento em prol de alguma meta ou projeto. Aqui temos a atuação exclusivamente humana, pois uma vez tendo todos os subsídios suficientes, pode aliá-los a sua competência intelectual para extrair os norteadores de suas tomadas de decisões estratégicas com vistas no alcance de um objetivo pré-estabelecido. Tomemos como exemplo o caso do aumento do dólar supracitado, imaginemos uma indústria que tem o valor de compra de suas principais matérias-primas indexadas ao dólar. Certamente apenas ter o conhecimento das regras que regem a flutuação da moeda americana não basta para que a empresa tenha lucro (ou deixe de ter prejuízo!), é preciso saber aplicar esse conhecimento nas decisões estratégicas e nesse momento entra a potencialidade intelectual humana em sua plena atividade aplicada . Uma máquina pode perfeitamente avaliar riscos, traçar cenários futuros, mas nunca poderá dizer ao ser humano quais deverão ser seus próximos passos, quais são seus objetivos, sonhos e projetos. Aqui chegamos ao fim do processo de tomada de decisões estratégicas, com a tecnologia sendo o meio e o ser humano, o fim.

Assim, utilizamos a estatística para transformar a massa de Dados em Informação, em um segundo momento para concatenar esse conjunto de informações em Conhecimento fornecendo subsídios para que o gestor possa determinar a aplicar desse conhecimento em seus projetos e metas, estruturando dessa forma a sua Inteligência estratégica.

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