Orientação para a execução de pesquisa de opinião pública

Uma pesquisa de opinião pública visa à obtenção de parâmetros de proporcionalidade existente entre seus constituintes acerca de determinado evento. Esses valores, pontuais e sujeitos a sazonalidades, devem ser interpretados como tal e apenas com uma consistência de levantamentos periódicos, é possível inferir tendências e evoluções, uma vez que o que será retratado na mesma será uma posição fixa da situação, dentro de uma margem de erro inerente, mensurável e controlável.

No corpo do presente artigo, será definida a estratégia de execução de uma pesquisa de campo, bem indicações para o correto cálculo das informações levantadas e a interpretação adequada dos valores obtidos.
Assim como é necessária apenas uma pequena amostra de sangue coletada para a verificação da existência, por exemplo, de alguma doença, precisamos obter a informação de apenas um pequeno grupo de pessoas para conseguirmos inferir a distribuição global da mesma na população. A única ressalva que deve ser feita é a de que o grupo de teste (elementos-alvo da pesquisa) deve ser representativo dentro de seu universo; assim, por exemplo, caso a população apresente uma composição de 60% de homens e 40% mulheres, o grupo de análise deve seguir a mesma proporção, buscando recriar ao máximo o universo no qual os elementos estão inseridos. Essas questões serão discutidas a seguir.

 

1. Algumas Definições

Antes de iniciarmos nossos trabalhos de definições de campo, temos que nos atentar para algumas definições teóricas que nos balizarão em nossos estudos e levantamentos:

Conjunto Universo: Grupo de análise;

Elemento: Indivíduo que constitui o conjunto universo;

Amostra: Subconjunto do conjunto universo, composto de elementos;

Estatística: Parâmetro de uma amostra (média, desvio padrão etc);

Proporção Amostral (p): Relação entre o número de elementos de uma categoria e a quantidade de elementos da amostra;

Intervalo de Confiança (IC)
: Região de confiabilidade da incidência do parâmetro real a ser levantado (também conhecida como Margem de Erro);

Coeficiente de Confiabilidade (a): Percentual de segurança do intervalo de confiança.

2. Parametrizações da Pesquisa

Antes de qualquer determinação é de fundamental importância considerar que os pesquisadores podem interferir, mesmo que de forma involuntária, na resposta do entrevistado, fato esse que deve ser evitado a todo custo para que não haja um viés na devolutiva das questões. O pesquisador deve atentar para a sua linguagem corporal (trejeitos, vestimentas, etc), seu modo de falar (modulações diferenciadas na voz, regionalismos (sotaques e gírias) etc) e até mesmo a ordem das perguntas a serem feitas podem levar a um levantamento que não corresponde ao universo que intenciona-se inferir determinados parâmetros.

Quanto à definição do público a ser abordado, deve-se levar em conta os parâmetros que se deseja alcançar (basicamente intervalo de confiança e coeficiente de confiabilidade) para determinar a quantidade de pessoas que deverão ter suas opiniões levantadas. Os cálculos e as possibilidades de decisão serão discutidos abaixo.

Com relação à distribuição (qualitativa e quantitativa) dos entrevistados, deve-se levar em conta o conjunto universo que está sendo pesquisado. Dessa forma, Censos e outros levantamentos estatísticos que determinam as estratificações societárias configuram-se de fundamental importância no planejamento estratégico de uma pesquisa de campo.

Dessa forma, se faz necessário levantar alguns pontos fundamentais acerca das proporcionalidades populacionais existentes entre:

• Sexos;
• Bairros;
• Graus de Escolaridade;
• Idade;
• Cor;
• Renda Familiar;
• Entre outros.

Assim, tendo em mãos esses valores, é possível determinar, aplicando os percentuais encontrados no total de pessoas que se intenciona entrevistar, conseguindo determinar a quantidade exata de pessoas de determinada estratificação societária.

 

2.1 Estudo de Caso

Suponhamos a seguinte distribuição dada pelo último censo populacional na cidade de interesse da pesquisa

• Sexos
o Homens: 60%
o Mulheres: 40%
• Bairros
o Moradores do Bairro A: 30%
o Moradores do Bairro B: 70%
• Graus de Escolaridade
o Segundo Grau: 20%
o Superior Completo: 80%

 

Assim, percentualmente podemos definir as seguintes estratificações percentuais:
• 3,6% das pessoas são Homens, Moradores do Bairro A e possuem o Segundo Grau (60% x 30% x 20% = 0,6 x 0,3 x 0,2 = 0,036 = 3,6%);

• 14,4% das pessoas são Homens, Moradores do Bairro A e possuem Superior Completo (60% x 30% x 80% = 0,6 x 0,3 x 0,8 = 0,144 = 14,4%);

• 8,4% das pessoas são Homens, Moradores do Bairro B e possuem Segundo Grau;

• 33,6% das pessoas são Homens, Moradores do Bairro B e possuem Superior Completo;

• 2,4% das pessoas são Mulheres, Moradoras do Bairro A e possuem Segundo Grau (40% x 30% x 20% = 0,4 x 0,3 x 0,2 = 0,024 = 2,4%);

• 9,6% das pessoas são Mulheres, Moradoras do Bairro A e possuem Superior Completo;

• 5,6% das pessoas são Mulheres, Moradoras do Bairro B e possuem Segundo Grau;

• 22,4% das pessoas são Mulheres, Moradoras do Bairro B e possuem Superior Completo.

Assim, caso tenhamos calculado uma quantidade de 1000 pessoas que devem ser entrevistadas, a distribuição deverá ser (em caso de números decimais, deve-se efetuar os devidos arredondamentos):

• 36 Homens, Moradores do Bairro A que possuem o Segundo Grau (aproximadamente 3,6% de 1000);

• 144 Homens, Moradores do Bairro A que possuem Superior Completo;

• 84 Homens, Moradores do Bairro B que possuem Segundo Grau;

• 336 Homens, Moradores do Bairro B que possuem Superior Completo;

• 24 Mulheres, Moradoras do Bairro A que possuem Segundo Grau;

• 96 Mulheres, Moradoras do Bairro A que possuem Superior Completo;

• 56 Mulheres, Moradoras do Bairro B que possuem Segundo Grau;

• 224 Mulheres, Moradoras do Bairro B que possuem Superior Completo.

Dessa forma obtemos um retrato mais próximo da distribuição real de pessoas dentro do espaço amostral determinado.

3. Estimativa de n

Seja n o número de pessoas que deverão ser entrevistadas. Para a sua determinação é necessário escolher a amplitude do Intervalo de Confiança e o Coeficiente de Confiabilidade. Suas escolhas recaem sobre os recursos (financeiros e temporais) disponíveis e o grau de certeza que deseja-se ter sobre determinado levantamento.

A fórmula para a determinação de n é:

(fórmula)

Onde z é a distribuição normal com parâmetros 0 e 1; a é o coeficiente de confiabilidade, d é a distância do Intervalo de Confiança e p é a proporção real de sucessos, para casos conservadores, admite-se um valor igual a 0,5.
Dessa forma, foram estruturados três cenários para exemplificar:

Cenário 1:

a=90% e IC de 1% => z = 1,645 e d = 0,01 => n ˜ 6765

Cenário 2:

a=90% e IC de 3% => z = 1,645 e d = 0,03 => n ˜ 752

Cenário 3:

a=95% e IC de 3% => z = 1,96 e d = 0,03 => n ˜ 1068

Assim, por exemplo, caso queiramos uma margem de erro de 3% com 90% de confiabilidade, devemos entrevistar 752 pessoas (cenário 2).

Procedendo dessa forma, devido ao Teorema Central do Limite, a proporção de respostas a determinadas perguntas corresponderá, dentro de uma margem de erro escolhida com um grau de confiança igualmente escolhido, à proporção na população observada.

4. Determinação das Perguntas

Para não interferir na resposta dos entrevistados, torna-se interessante aplicar primeiramente perguntas para respostas não estimuladas, com vistas na fixação de determinada marca ou nome nas lembranças das pessoas. Essas são as respostas dadas em um primeiro impacto, correspondendo àquelas que estão mais fixas em sua memória. Alguns exemplos de perguntas para respostas não estimuladas:

• Em quem o(a) sr(a). votaria para prefeito/governador/presidente nas próximas eleições?;

• Em quem o(a) sr(a). não votaria para prefeito/governador/presidente nas próximas eleições? (medição dos índices de rejeição individual);

• Em qual partido o(a) sr(a). votaria?;

• Em qual partido o(a) sr(a). não votaria? (medição dos índices de rejeição partidária).

Em seguida, sugerimos que seja feito um grupo de perguntas para respostas estimuladas, para traçar um cenário mais fiel sobre um grupo de perspectivas em diversos cenários políticos (disputas com os candidatos A, B ou C de certos partidos) em primeiro e segundo turno.

• Dentre os seguintes candidatos, em quem o(a) sr(a). votaria para prefeito/governador/presidente nas próximas eleições?;

• Dentre os seguintes candidatos, em quem o(a) sr(a). não votaria para prefeito/governador/presidente nas próximas eleições? (medição dos índices de rejeição individual);

• Dentre os seguintes partidos, no candidato de qual deles o(a) sr(a). votaria?;

• Dentro os seguintes partidos, no candidato de qual deles o(a) sr(a). não votaria? (medição dos índices de rejeição partidária).

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