O erro no contexto escolar através da visão construtivista: uma nova possibilidade

Tendo em mente a visão de Piaget, é possível refletir a respeito do papel do erro nas nossas vidas e principalmente como se dá a negociação com esse fator imponderável dentro das escolas, mais especificamente na prática docente.

O primeiro pensamento deverá ser o da necessidade imperativa de se tomar outra posição com relação ao erro, que não a punitiva, mas sim a de modo a utilizá-lo como ferramenta de apoio para a evolução do educando.

Nesse contexto, podemos dividir essa questão em duas visões: a formal (adulto) e a natural (criança).

No nível da visão formal (a do adulto), o errado contrapõe-se ao certo, ou seja, a verdade dominada pelo adulto. Nesse nível é importante frisar a importância do compromisso que o professor tem em ensinar o que é certo, porém este tem que saber lidar com o erro dos seus alunos, que estão caminhando em direção a esse conhecimento. Outro ponto importante é a questão da avaliação, na qual apenas observa-se o final e não o processo.

O compromisso educacional do professor tem três exigências: o comprometimento com a área; que “tenha em conta as características psicológicas da criança, seu nível de desenvolvimento, suas dificuldades emocionais, sua condição social”, além de que este “transmita os conhecimentos de uma forma metodologicamente correta”.

O educador não se pode deixar levar pelo reducionismo pedagógico (exemplificado pela produção de cartilhas), o qual se relaciona com duas mentalidades: o pré-formismo e o empirismo – o primeiro baseia-se na idéia de que o conhecimento se expressa por revelação (generoso com o erro) e o segundo baseia-se na transmissão (muito exigente diante do erro).

No construtivismo, algo tem que ser construído e não transmitido ou revelado (fator principal de discrepância entre essas visões). Porém, no plano formal, o erro é algo ruim e deve ser eliminado, de modo a ser apagado, mas o problema é que na vida as coisas não podem ser simplesmente apagadas, elas têm que ser trabalhadas com base em sua irreversibilidade.

Por outro lado, na visão natural (a da criança) o ser humano aprende com seus erros (o construtivismo afirma que o erro é possível e até mesmo desejável para o desenvolvimento pleno da pessoa). Para Piaget, não interessa o erro, mas sim a ação física ou mental, sendo que erro e acerto são detalhes dessas ações. “O que está certo aqui, pode estar errado lá. Tem-se apenas aspectos que devem ser corrigidos ou melhorados e outros que devem ser mantidos”, ou seja, não existe a necessidade de uma demonização do erro, uma vez que ele é parte de um processo.

Na verdade o ponto fundamental é transformar o erro em algo observável para a criança, de modo que ela possa ver o porquê da discordância com o que seria correto, os motivos que levaram a esse erro e quais são os caminhos para fazer o certo.

O erro é fundamental na sua possibilidade de ser um observável, uma vez que implica nos três níveis do desenvolvimento da resposta das crianças: o nível I é o da justaposição e sincretismo, onde o erro é recalcado do ponto de vista cognitivo; o nível II caracteriza-se pela flutuação das respostas das crianças, sendo que aqui o erro “corresponde à situação em que a posteriori admite-se ter errado” e o nível III é definido como sendo aquele que o problema é compreendido tal como é colocado, e nesse caso o erro é um problema para o sujeito, faz parte do processo e é interno a ele.

Importante se faz lembrar que o erro no plano do “fazer” e “compreender”, segundo Piaget, são dois sistemas cognitivos que dependem da nossa ação física e mental.

No sistema do fazer, somos determinados por um problema, um objetivo e para alcançarmos nossos objetivos, precisamos de “meios adequados” e nesse plano, o errar é o que frustra um resultado em função do objetivo. Dessa forma, se a criança erra, mas tem claro o objetivo, esse erro se torna um problema a ser corrigido que pode ser feito de maneira muito mais fácil.

No plano do compreender, atingir o resultado é o que menos importa uma vez que estamos no plano da razão, do sentido. Nesse, o erro corresponde “a uma contradição, conflito ou falha na teoria (hipótese) que explica determinado fenômeno. Erro, nesse plano, corresponde, então, às lacunas em que aquilo que a criança diz não se articula com o que faz”.

A atitude que o professor deve assumir diante do erro de forma a ser condizente com o construtivismo, o que configura uma saída para a problemática, é a de transformá-lo em uma oportunidade de aprendizagem e não simplesmente justificando-o ou ignorando-o de modo complacente, muito menos evitá-lo por meio de punições. Uma ação sugerida é reexaminar o nível de avaliação (e punição) acerca do erro da criança? Necessário se faz observar que a consequência do erro só fará sentido se for algo sustentável logicamente para o educador e, naturalmente, assimilável para a criança.

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