Fecham-se as cortinas

Recentemente ao ler o excelente livro O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde me deparei com um trecho que me deixou absorto em pensamentos. Segue o mesmo na íntegra:

“Às vezes, acontece que as verdadeiras tragédias da vida ocorrem de uma maneira tão pouco artística que nos ferem por sua crua violência, sua incoerência absoluta, sua absurda falta de sentido, sua completa carência de estilo. Afetam-nos do mesmo modo que a vulgaridade. Dão-nos uma impressão de pura força bruta contra a qual nos rebelamos. Às vezes, entretanto, uma tragédia que encerra elementos artísticos de beleza atravessa as nossas vidas. Se esses elementos de beleza são reais, tudo desperta em nós, inteira e simplesmente, o sentido do efeito dramático. Deixamos subitamente de ser atores, para tornar-nos espectadores da peça. Ou melhor, representamos ambas as coisas.”

Ao terminar esse trecho parei por alguns minutos e passei a refletir sobre momentos marcantes de minha vida, especialmente os tristes. Pude então ter a perspectiva a respeito daquilo que realmente pode me alegrar ou entristecer e, especialmente, seus porquês.

De fato, queremos uma vida em arte, uma vida repleta de significado e profundidade, e quando o bruto, o ignorante, o grave se faz presente em nossas existências, nos inconformamos. Então iniciamos uma rebelião interna, sentimos nascer uma energia que busca aniquilar a desordem do mundo exterior para uma pretensa elevação daquilo que é real a um patamar onírico.

O ponto é que vivemos grandemente envoltos no mais puro caos, onde as pessoas (nós inclusos) buscam atavicamente satisfazer suas necessidades e dar sentido às suas existências e a Natureza está pouco se lixando para nosso destino: se morrermos agora, ela seguirá sua jornada.

Não bastando, aquilo que lutamos uma vida inteira para construir, de uma hora pra outra pode sumir, transmutar, degenerar e a brutalidade do mundo real é jogada fria e inapelavelmente em nossos rostos.

Não vejo isso como um pessimismo barato, mas sim como um realismo franco que permite que a partir dele tenhamos a capacidade de aproveitarmos com mais qualidade o bem presente e de sermos maiores do que o que é oferecido pelo nossa programação original. Se não fizermos nada além de sobreviver, a mesmice e o desvanecer serão a tônica de nossas existências, com algumas tristezas e alegrias aqui e acolá.

Se nada há de novo debaixo do Sol (Eclesiastes, capítulo 1 versículo 9), o que nos fará especiais poderá ser então nossa atuação no tempo que temos, com as oportunidades de sermos significativos, com a constante manutenção de nossa capacidade de contemplar.

Ainda que vez ou outra o contato com o abjeto seja inescapável e quando a poesia da vida se perder na prosa do cotidiano ou nas tragédias do mundo, talvez possamos nos lembrar do que nos encanta, aceitar o que passou apesar do mundo tosco e buscar uma beleza que terá a capacidade de nos deslumbrar novamente.

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