A Estatística na Sociedade

A Estatística na Sociedade

Alguns apontamentos históricos sobre o aparecimento da Estatística

Se a Estatística é uma disciplina relativamente nova o mesmo não acontece com o interesse do Homem por possuir formas de registro dos mais variados tipos de dados.

Os primeiros levantamentos de dados têm cerca de 3000 anos. Povos como os babilônios, os egípcios ou os romanos, cedo perceberam a importância de possuir registros agrícolas, comerciais e mesmo medições de fenômenos naturais enquanto elementos fundamentais para a organização da sociedade.

No entanto, foram os egípcios e os romanos os primeiros a terem a preocupação de realizar uma contagem oficial e periódica de todos os habitantes de uma determinada região com o propósito de adquirir conhecimentos acerca da sua população e dos elementos que a ajudavam a caracterizar. O enumerar destes elementos, ou censos, tinha como objetivo principal a obtenção de informações essenciais para assuntos governamentais, como a cobrança de impostos ou o número de homens disponíveis para o serviço militar.

Na Europa, por volta do ano de 1085, foram realizados na Inglaterra um dos primeiros e mais completos levantamentos estatísticos que se conhece, no qual se procuraram coligir dados acerca da utilização que os proprietários faziam da terra, com vista ao cálculo do imposto a cobrar. Neste documento, intitulado Doomsday Book, é possível encontrar elementos sobre os proprietários, o uso agrícola que era feito das terras, o número de empregados por propriedade, ou mesmo o número de animais existentes, bem como a sua variedade.

Quando, no século XIII, a Igreja introduziu na Itália a inscrição obrigatória dos casamentos, dos nascimentos e dos óbitos, iniciou-se um novo tipo de registros, que permitiu um outro tipo de descrição da população daquela época.

Em Portugal, o primeiro estudo da população aconteceu durante o reinado de D. João III, em 1527, e ficou conhecido por numerando os vizinhos, tendo permitido estabelecer uma estimativa da população portuguesa dessa época e algumas das suas características. Este apuramento estatístico foi um dos primeiros estudos deste gênero conhecido na Europa.

Um outro tipo de documento aparece em Inglaterra, no século XVII: as Tábuas de Mortalidade. Numa altura de epidemias e de peste, John Graunt (1620-1674), baseado nos registros sobre o número de nascimentos e o número de mortes, fez as primeiras inferências estatísticas, partindo de uma análise a estes dados. Ainda hoje, as Tábuas de Mortalidade são utilizadas pelas seguradoras.

Embora seja possível encontrar as raízes do conhecimento estatístico com o começo da organização das sociedades, a palavra Estatística deve-se ao economista alemão Gottfried Achenwall, que entre 1748 e 1749, utilizou-a, pela primeira vez, no seu livro Introdução à Ciência Política. A palavra alemã Statistik tem origem na palavra status, que em latim significa estado. Podemos encontrar a etimologia da palavra Estatística na forma italiana de Statista, que em 1633, tem um sentido de “ciência do estado”, sendo na época utilizada para descrever, de uma forma sistemática, a organização dos estados. A escassez de dados numéricos impôs que, no seu início, a natureza da Estatística fosse fundamentalmente qualitativa.

Começando a ser ensinada por volta de 1660, na Alemanha, em Universidades de Direito, Política e História, foi no final do século XVIII que o ensino da Estatística se expandiu aos países limítrofes. A Áustria e a Hungria, respectivamente em 1777 e 1784, introduziram, nos primeiros anos das suas faculdades de Direito e Política, cursos de Introdução à Estatística. Nesta época, a “função da Estatística era tornar conhecidos os aspectos mais notórios e significativos de um estado” (Ottaviani, 1991, p. 244).

Com o desenvolvimento econômico que se seguiu à Revolução Francesa e o aumento pelo interesse das condições econômicas e sociais dos países, a importância da Estatística acentua-se, passando cada vez mais a ser usada para descrever econômica e politicamente os países. A era da industrialização, da expansão do capital e do colonialismo foi uma época de um grande desenvolvimento para a Estatística, estando, como o próprio afirma, bem presente numa idéia da altura: “a terra requer a Geometria, os contratos a Álgebra e o capital a Estatística” (p. 5).

Porém, só no início do século XIX é que vários países europeus e da América introduziram temas de Estatística nas suas universidades, assistindo-se nessa altura a “grandes desenvolvimentos da teoria estatística e na maneira de usar a Estatística” (Branco, 2000, p. 12). Países como a Holanda admitem-na em 1807 em algumas das suas faculdades de Direito e, em 1845, são diversas as universidades dos Estados Unidos da América que a consideram como um instrumento para estudos sobre aspectos morais e intelectuais, iniciando-se assim a ligação a outras ciências.

Em 1849, a Estatística passou a integrar as faculdades belgas de Filosofia e Letras, como Aritmética Social. Em França, no ano de 1854, iniciou-se a primeira disciplina com o nome de Estatística, no curso de Administração e Negócios Estatísticos. No Reino Unido, no ano de 1842, surgiu o primeiro curso de Ciência Econômica e Estatística, na Universidade de College (Londres).

Nos finais do século XIX, princípios do século XX, a Estatística deu os primeiros passos no sentido de ocupar um lugar de destaque no mundo acadêmico, passando, simultaneamente, a ganhar um novo lugar junto das universidades de Economia e de Matemática, mas também de Psicologia e Antropologia (Ottaviani, 1991). Como afirma Branco (2000) “na sequência deste trabalho fundamental muitos métodos estatísticos, apreciados ou não pelo seu valor intelectual mas também pelo seu interesse na resolução de problemas das ciências aplicadas, foram postos à disposição da comunidade” (p. 12).

Como considera Bibby (1986), a Estatística começou por ser entendida como os dados requeridos pelos governos, com objetivos econômicos e militares precisos, para se transformar nos dados que permitem caracterizar os governos e as populações, sendo cada vez maior a sua aplicação a outras ciências.

Branco (2000), acrescenta que “assiste-se a uma generalização da emergência e reconhecimento de problemas de natureza estatística nos vários ramos científicos, na indústria e em atividades governamentais o que fez crescer o interesse pela atividade estatística” (p. 12). Com Galton, Pearson e Weldon enfatizaram-se as suas aplicações à Biologia; com Fisher, Spearman e Deming alargou-se a sua influência a domínios como a Agricultura, a Psicologia e a Indústria. Por fim, a Estatística passou a ser cada vez mais considerada como “os métodos de lidar com os dados numéricos” (Bibby, 1986, p. 9) ou ainda, como “o estudo dos modos de utilização dos dados de forma a permitir uma reflexão e, consequentemente, uma tomada de decisão numa situação concreta ou que envolva uma margem de incerteza” (Rade, 1986, p. 127).

Na passagem para o século XX, assistiu-se a um período de transição do que se entendia como sendo uma primeira visão da Estatística, caracterizada por uma dispersão de temas e escassos conteúdos metodológicos, para uma disciplina que recorre a técnicas matemáticas, à teoria das probabilidades e a métodos cada vez mais sofisticados para estudar os dados (Ottaviani, 1991).

Nomeadamente, a Estatística Inferencial, com o uso sistemático da Probabilidade, permitiu novas formas de coletar, analisar e interpretar a informação, para além da sua descrição. Paralelamente, o ensino da Estatística, nas universidades, no final do século XIX, sofreu profundas reformulações metodológicas, resultantes do trabalho de Pearson, que aumentou a utilização da Matemática e a ligação da Estatística com as Probabilidades (Ottaviani, 1991).

A Estatística na sociedade contemporânea

À medida que as sociedades se complexificam aumenta a necessidade de quantificar muita da informação que geram. A Estatística, com os seus conceitos e métodos para recolher, organizar e analisar essa informação vasta, tem-se revelado um poderoso aliado neste desafio que é transformar a informação bruta em dados que permitem ler e compreender uma realidade.

Talvez por isso, se tenha tornado cada vez mais numa presença constante no dia a dia de qualquer cidadão, fazendo com que haja um amplo consenso em torno da idéia segundo a qual a literacia estatística¹ deva ser uma prioridade da sociedade moderna, ou seja, de uma cidadania com responsabilidade social. Mas, para isso, há que entender e ser capaz de produzir argumentos quantitativos “recolher, representar e tratar a informação são atividades da maior importância no mundo atual” (National Council of Teachers of Mathematics, 1991, p. 201).

¹Entende-se Literacia Estatística como a capacidade para interpretar argumentos estatísticos em jornais, notícias e informações diversas. A Literacia Estatística é mais do que possuir competências computacionais, alargando-se pela literacia numérica necessária às populações que estão a ser constantemente bombardeadas com dados sobre os quais têm de tomar decisões (Lajoie, Jacobs e Lavigne, 1993).

De fato, atualmente, a importância que os conhecimentos estatísticos têm na vida de qualquer indivíduo é tão significativa que está sempre dividido entre dois pólos complementares: o de consumidor ou o de produtor de dados (Almeida, 2000).

 

Quando um cidadão qualquer utiliza os mais variados tipos de dados para o seu dia a dia, por exemplo quando lê um jornal ou ouve uma notícia sobre os indicadores de consumo, as taxas de desemprego, os índices de inflação ou os níveis de poluição num determinado local, torna-se um consumidor de dados. Mas, também de formas de os apresentá-los, organizá-los e analisá-los.

Muitos dos projetos pessoais e profissionais de cada indivíduo obrigam-no a saber compreender e a interpretar esses mesmos dados e linguagens, sob pena de cometer juízos incorretos e, consequentemente, não tomar as melhores decisões num futuro mais ou menos próximo.

Ao mesmo tempo em que cada cidadão utiliza os mais variados tipos de dados, também os produz, quando escolhe um produto, quando vota, quando decide uma profissão ou onde morar. Por isso, torna-se num produtor de dados, quando toma decisões e faz escolhas, mas também pela forma como recolhe e trata a informação ao procurar compreender e explorar o mundo que o rodeia.

Incorrer no estatuto de consumidor e de produtor de informação estatística é também a situação a que se sujeita todo o indivíduo que procura assumir uma atitude crítica e responsável face à informação a que vai tendo acesso. Sobretudo, se se atender que nem todas as notícias e nem todos os dados são divulgados de forma simples e direta e que por detrás deles muitas vezes se esconde um vasto séquito de intenções que é preciso descodificar. (Almeida, 2000, p. 20)

Mas, para saber decodificar esta informação, é necessário possuir um pensamento estatístico, ou seja, “ser capaz de utilizar ideias estatísticas e atribuir um significado à informação estatística. Para isso há que ser capaz de fazer interpretações com base em conjuntos de dados, representações de dados ou mesmo com um resumo dos dados” (Garfield e Gal, 1999, p. 207).

De acordo com estes dois autores, muito deste pensamento estatístico combina ideias acerca de dados e da noção de incerteza, obrigando a que cada sujeito tenha de fazer inferências para conseguir interpretar esses mesmos dados, ao mesmo tempo que terá de ter conhecimentos acerca de conceitos e ideias estatísticas como distribuição, centro, dispersão, incerteza, acaso e amostra.

Saber pensar estatisticamente permite que, no seu quotidiano, cada sujeito consiga compreender os dois tipos de mensagens que, geralmente, estão presentes na variedade de informação a que vai tendo acesso: as mensagens simples e diretas, mas também as que envolvem processos complexos de inferência.

É com base neste tipo de pensamento que muitas decisões são tomadas, depois de ter sido feito um “diagnóstico e uma avaliação dos múltiplos fatores de risco impostos por uma conjectura científica, econômica, social e política em permanente transformação, como é a época atual” (Almeida, 2000, p. 20).

Na sociedade contemporânea, muitas das decisões sobre as quais os cidadãos são chamados a pronunciar-se envolvem riscos e nem todos os dados estão completos ou são conhecidos (Jacobsen, 1991).

Coletiva ou individualmente, todos são confrontados com a necessidade de assumirem riscos pelo fato de fazerem parte de uma sociedade, estando envolvidos ativamente no processo de tomada de decisão, mesmo quando se demitem dele.

O ensino tradicional, e uma perspectiva da ciência em termos de certezas, onde entre o certo e o errado não existe uma gradação, deram origem a que muitos dos cidadãos não tenham sido incentivados a lidar com a incerteza e o risco (Godino, Batanero e Cañizares, 1996).

A importância de uma educação onde os indivíduos aprendam a avaliar o risco de situações tão variadas como as sociais, políticas, econômicas, científicas, tecnológicas ou qualquer outra combinação e, simultaneamente, a encontrar o equilíbrio entre o que pode ser uma situação desse tipo e os benefícios que dela se podem retirar, está bem presente no Relatório Cockcroft (1982): a Estatística não é só um conjunto de técnicas, é um estado de espírito na aproximação aos dados, pois facilita conhecimentos, para lidar com a incerteza e a variabilidade dos dados, mesmo durante a sua recolha, permitindo assim que se possam tomar decisões e enfrentar situações de incerteza. (p. 234)

A Estatística, com os seus conceitos e métodos, configura-se com um duplo papel: permite compreender muitas das características da complexa sociedade atual, ao mesmo tempo em que facilita a tomada de decisões num quotidiano onde a variabilidade e a incerteza estão sempre presentes.

Como afirma Almeida (2000), a utilização cada vez mais intensiva que se tem vindo a fazer das noções estatísticas bem como das sínteses e das inferências que elas sugerem permite mesmo considerar que, a par das suas funções como um instrumento de decisão e de avaliação dos custos e dos benefícios das opções de cada um, esta área do conhecimento desempenha também um papel não menos relevante como ferramenta de exploração do mundo que nos rodeia, traduzindo-se o seu domínio numa mais valia geradora de possibilidades profissionais, acadêmicas e científicas. (p. 21)

O papel da Estatística na tomada de decisões dos sujeitos é considerado, por alguns autores, como fazendo parte dos grandes objetivos que os currículos de Matemática devem possibilitar aos alunos. Brown (1981) refere que as comissões que se têm dedicado a estudar as novas orientações curriculares, numa época de recessão econômica e de desemprego, têm concluído que os objetivos são agora mais relacionados com as necessidades da sociedade. Salientando a necessidade de formar uma mão-de-obra qualificada com cidadãos que dominam o cálculo [ou melhor, que sejam matematicamente letrados] e sejam capazes de tomar decisões fundamentadas tanto a nível pessoal, como familiar e da sociedade em geral. (p. 26)

 

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